Gerou-se uma hegemonia opinativa no meio do comentário político português: importa atacar, senão mesmo abater, verbalmente a Alemanha. Vivemos na União Europeia, dizem eles (os dos establishment), numa ditadura da "Sra." Merkel (que, recorde-se, é Doutorada em Física). Inventou-se o ente político atípico denominado de "Merkozy". Porém, verdadeiramente, como defendeu Freitas do Amaral, nem de qualquer noção de conjunto podemos falar (Merkel + Sarkozy) porque "o miúdo vem sempre atrás". A isto se contrapõe, portanto, uma pretensão de novamente restaurar a "democracia" na União Europeia", que nos liberte da sangria que os alemães, aparentemente por um qualquer diabólico espírito, nos querem impor.
Comentário:
1) Os portuguesinhos do costume se fossem espertos estavam calados, até porque a maioria não é inocente no processo de causalidades que nos conduziu ao presente estado de coisas.
2) O discurso que apresentei, que abertamente procura ser marcante ao utilizar expressões de eco mediático, está errado por diversas razões: em vez de nos concentrarmos nas ideias e nas eventuais orientações políticas subjacentes e que podem ser argumentativamente discutidas (se as soluções que a União Europeia / Alemanha nos oferecem são, nomeadamente do ponto de vista económico, as mais defensáveis ou não), fazemos o papel de parente pobre. Pior: de parente pobre choroso e reclamante. Depois de a festa da última década ter acabado neste canto à beira-mar plantado, qual a reacção a quem nos disponibiliza o dinheiro para nos tentarmos salvar e nos quer obrigar a sacrifícios? Nada mais e nada menos que o reclamar e o barafustar insultando-os (hoje em dia quando se menciona a "Sra. Markel" em qualquer conferência ou comício, a assistência sente-se compelida à risada geral).
3) A União Europeia não foi construída, até hoje, para se transformar numa "comunidade de responsabilidade". E, depreende-se, é tão forte o sentimento de recusa dessa ideia que a sua proibição está inscrita nos Tratados. Donde segue que é absolutamente natural, moral e compreensível que os alemães não queiram responder pelas nossas dívidas. Quais são os portugueses que querem responder pelas dívidas dos gregos? Eu não quero.
4) Estes "senhores" que falam na ditadura existente presentemente na União Europeia, em que em substituição das instituições europeias legitimadas apenas surge a "Sra." Merkel, curiosamente nunca definem o que entendem por "democracia". É verdade que enchem a boca com essa palavra: "mais democracia!", só que é preciso que sejam confrontados com a pergunta elementar: isso significa propriamente o quê? Ninguém o esclarece. Se for a do modelo actual, lamento mas ninguém está contente. Acresce que tentar revitalizar o papel do Parlamento redunda, regra geral, em mais burocratização, ineficiência e restrição de liberdade, para problemas para os quais a Política tem dificuldade em encontrar soluções, dado que não os controla nem nunca controlará (os interessados em bibliografia podem começar pelo último capítulo de Ulrich Beck, Die Risikogesellschaft - há traduções).
5) Suspeito que para muitos (vejam-se as declarações de hoje do Seguro do Partido Socialista), mais democracia converter-se-ia na ditadura dos pequenos: o que nós verdadeiramente queremos não é austeridade, não é resolver os problemas estruturais de fundo da economia portuguesa e do nosso Estado (maxime, dimensão do Estado Social / Administração Pública), é sim, para ser rápido e indolor, deitar a mão à bolsa dos poupados alemães.
6) Notem, ainda, o seguinte paradoxo: estes nossos democratas referem-se sempre, e apenas, à "Sra." Merkel. Por momentos tive a impressão de que aquele imenso país que dá pelo nome de Alemanha era habitado somente por uma fêmea, com pouco conhecimento de moda e sentido estético e com um ar absolutamente estandardizado (pese embora os até bonitos olhos azuis). "Cadê" os alemães, gente? Os 80 milhões de alemães que lá habitam ter-se-ão sumido? Aceitem o meu modesto contributo e se querem ser democratas façam o seguinte: não barafustem contra a Merkel, digam antes: "A Merkel que submeta a referendo se os alemães querem ou não pagar as nossas dívidas". Aí sim, é legítimo começarmos a invocar a democracia, em vez de querermos que a Merkel nos faça as mais convenientes vontades sem passar pelo seu povo.
7) Em relação com este último aspecto, há que dar conta do ridículo em que com aquele tipo de acusações do início deste post nos colocamos: "fala o roto ao esfarrapado". De facto, a nossa democracia nacional recomenda-se: a democracia controlada por uns poucos, em que os deputados são lá colocados por organizações terroristas que não conhecem o princípio da democracia interna (vulgos "partidos") e em que a comunicação social tem um peso e uma amplitude crítica menor. Eu prefiro a democracia do Frankfurter Allgemeine Zeitung e do Die Zeit.
8) Último ponto para expressar uma opinião pessoal que absolutamente ninguém partilha (portanto, deve estar errada). Sigo a imprensa alemã com regularidade de há um ano para cá, antes do nosso pedido de ajuda, mas quando já começávamos a ficar com a corda ao pescoço. Rapidamente fiquei com uma impressão: a "Sra. Merkel" é o menor dos nossos problemas. Atrás dela existe, de facto, uma opinião pública (para quem aceite o conceito, que é mais ficção que outra coisa) crítica do rumo económico dos países do Sul da Europa, assente no endividamento. Sempre achei que a Merkel se pudesse fazer mais pela União Europeia, o faria, não fosse qualquer opção mais voluntarista automaticamente trucidada na esclarecida imprensa alemã e não esbarrasse essa mesma opção num sentimento antagónico da maioria dos alemães.
Ainda assim, há que evidenciar dois aspectos: essa mesma imprensa alemã crítica, já de há vários meses a esta parte que se tem acalmado, começando a compreender a importância para a própria Alemanha de "ajudarem mais" (vão-se multiplicando entrevistas de pessoas influentes, entre elas o anterior Presidente da República Federal no Die Zeit, que já espelham essa mudança de atitude); paulatinamente, vozes críticas obstrutivas de certas políticas que nós por cá desejamos vão sendo substituídas - basta ver que Axel Weber demitiu-se, entrando para o seu lugar de Presidente do Bundesbank um homem da confiança de Merkel; e Jürgen Stark no BCE, grande opositor daquilo que os nossos intelectuais do costume agora defendem - a intervenção musculada do BCE nos mercados da dívida secundários, também vai sair para dar o lugar a um "pragmático" (sua própria caracterização), que não tenderá a colocar tantos entraves àquela mesma acção do BCE, o Sr. Jörg Asmussen (podem ver a entrevista do penúltimo domingo no Welt am Sonntag).
Conclusão: cuidado, que é para não darem razões aos alemães (depois de lhe chamarem ditadores), de falarem dos 11 motoristas do passos Coelho e das vossas pensões milionárias.















