Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

OS DEMOCRATAS NO CANTO DA PENÍNSULA



Gerou-se uma hegemonia opinativa no meio do comentário político português: importa atacar, senão mesmo abater, verbalmente a Alemanha. Vivemos na União Europeia, dizem eles (os dos establishment), numa ditadura da "Sra." Merkel (que, recorde-se, é Doutorada em Física). Inventou-se o ente político atípico denominado de "Merkozy". Porém, verdadeiramente, como defendeu Freitas do Amaral, nem de qualquer noção de conjunto podemos falar (Merkel + Sarkozy) porque "o miúdo vem sempre atrás". A isto se contrapõe, portanto, uma pretensão de novamente restaurar a "democracia" na União Europeia", que nos liberte da sangria que os alemães, aparentemente por um qualquer diabólico espírito, nos querem impor.

Comentário:

1) Os portuguesinhos do costume se fossem espertos estavam calados, até porque a maioria não é inocente no processo de causalidades que nos conduziu ao presente estado de coisas.

2) O discurso que apresentei, que abertamente procura ser marcante ao utilizar expressões de eco mediático, está errado por diversas razões: em vez de nos concentrarmos nas ideias e nas eventuais orientações políticas subjacentes e que podem ser argumentativamente discutidas (se as soluções que a União Europeia / Alemanha nos oferecem são, nomeadamente do ponto de vista económico, as mais defensáveis ou não), fazemos o papel de parente pobre. Pior: de parente pobre choroso e reclamante. Depois de a festa da última década ter acabado neste canto à beira-mar plantado, qual a reacção a quem nos disponibiliza o dinheiro para nos tentarmos salvar e nos quer obrigar a sacrifícios? Nada mais e nada menos que o reclamar e o barafustar insultando-os (hoje em dia quando se menciona a "Sra. Markel" em qualquer conferência ou comício, a assistência sente-se compelida à risada geral).

3) A União Europeia não foi construída, até hoje, para se transformar numa "comunidade de responsabilidade". E, depreende-se, é tão forte o sentimento de recusa dessa ideia que a sua proibição está inscrita nos Tratados. Donde segue que é absolutamente natural, moral e compreensível que os alemães não queiram responder pelas nossas dívidas. Quais são os portugueses que querem responder pelas dívidas dos gregos? Eu não quero.

4) Estes "senhores" que falam na ditadura existente presentemente na União Europeia, em que em substituição das instituições europeias legitimadas apenas surge a "Sra." Merkel, curiosamente nunca definem o que entendem por "democracia". É verdade que enchem a boca com essa palavra: "mais democracia!", só que é preciso que sejam confrontados com a pergunta elementar: isso significa propriamente o quê? Ninguém o esclarece. Se for a do modelo actual, lamento mas ninguém está contente. Acresce que tentar revitalizar o papel do Parlamento redunda, regra geral, em mais burocratização, ineficiência e restrição de liberdade, para problemas para os quais a Política tem dificuldade em encontrar soluções, dado que não os controla nem nunca controlará (os interessados em bibliografia podem começar pelo último capítulo de Ulrich Beck, Die Risikogesellschaft - há traduções).

5) Suspeito que para muitos (vejam-se as declarações de hoje do Seguro do Partido Socialista), mais democracia converter-se-ia na ditadura dos pequenos: o que nós verdadeiramente queremos não é austeridade, não é resolver os problemas estruturais de fundo da economia portuguesa e do nosso Estado (maxime, dimensão do Estado Social / Administração Pública), é sim, para ser rápido e indolor, deitar a mão à bolsa dos poupados alemães.

6) Notem, ainda, o seguinte paradoxo: estes nossos democratas referem-se sempre, e apenas, à "Sra." Merkel. Por momentos tive a impressão de que aquele imenso país que dá pelo nome de Alemanha era habitado somente por uma fêmea, com pouco conhecimento de moda e sentido estético e com um ar absolutamente estandardizado (pese embora os até bonitos olhos azuis). "Cadê" os alemães, gente? Os 80 milhões de alemães que lá habitam ter-se-ão sumido? Aceitem o meu modesto contributo e se querem ser democratas façam o seguinte: não barafustem contra a Merkel, digam antes: "A Merkel que submeta a referendo se os alemães querem ou não pagar as nossas dívidas". Aí sim, é legítimo começarmos a invocar a democracia, em vez de querermos que a Merkel nos faça as mais convenientes vontades sem passar pelo seu povo. 

7) Em relação com este último aspecto, há que dar conta do ridículo em que com aquele tipo de acusações do início deste post nos colocamos: "fala o roto ao esfarrapado". De facto, a nossa democracia nacional recomenda-se: a democracia controlada por uns poucos, em que os deputados são lá colocados por organizações terroristas que não conhecem o princípio da democracia interna (vulgos "partidos") e em que a comunicação social tem um peso e uma amplitude crítica menor. Eu prefiro a democracia do Frankfurter Allgemeine Zeitung e do Die Zeit.

8) Último ponto para expressar uma opinião pessoal que absolutamente ninguém partilha (portanto, deve estar errada). Sigo a imprensa alemã com regularidade de há um ano para cá, antes do nosso pedido de ajuda, mas quando já começávamos a ficar com a corda ao pescoço. Rapidamente fiquei com uma impressão: a "Sra. Merkel" é o menor dos nossos problemas. Atrás dela existe, de facto, uma opinião pública (para quem aceite o conceito, que é mais ficção que outra coisa) crítica do rumo económico dos países do Sul da Europa, assente no endividamento. Sempre achei que a Merkel se pudesse fazer mais pela União Europeia, o faria, não fosse qualquer opção mais voluntarista automaticamente trucidada na esclarecida imprensa alemã e não esbarrasse essa mesma opção num sentimento antagónico da maioria dos alemães.
Ainda assim, há que evidenciar dois aspectos: essa mesma imprensa alemã crítica, já de há vários meses a esta parte que se tem acalmado, começando a compreender a importância para a própria Alemanha de "ajudarem mais" (vão-se multiplicando entrevistas de pessoas influentes, entre elas o anterior Presidente da República Federal no Die Zeit, que já espelham essa mudança de atitude); paulatinamente, vozes críticas obstrutivas de certas políticas que nós por cá desejamos vão sendo substituídas - basta ver que Axel Weber demitiu-se, entrando para o seu lugar de Presidente do Bundesbank um homem da confiança de Merkel; e Jürgen Stark no BCE, grande opositor daquilo que os nossos intelectuais do costume agora defendem - a intervenção musculada do BCE nos mercados da dívida secundários, também vai sair para dar o lugar a um "pragmático" (sua própria caracterização), que não tenderá a colocar tantos entraves àquela mesma acção do BCE, o Sr. Jörg Asmussen (podem ver a entrevista do penúltimo domingo no Welt am Sonntag).

Conclusão: cuidado, que é para não darem razões aos alemães (depois de lhe chamarem ditadores), de falarem dos 11 motoristas do passos Coelho e das vossas pensões milionárias.

Terça-feira, 21 de Junho de 2011

POESIA NOS PASSOS PERDIDOS




A eleição de Maria Assunção Esteves para Presidente da Assembleia República prendeu-me a atenção. Não por ser mulher. Sou pouco sensível a esses regozijos, masculinos e femininos, que encontram uma felicidade especial fundada meramente nas especificidades do órgão sexual de alguém. Se em outras circunstâncias e contextos tal até se pode compreender, em casos de eleição para cargos políticos, bem como no domínio laboral a propósito das posições dirigentes em empresas de grande dimensão (discussão actual na União Europeia e Alemanha), o facto de alguém ter vagina ou pénis não é, para mim, critério relevante.

O que me surpreendeu foi mesmo o discurso. Um discurso de tal sorte poético, que não tenho memória de ouvir nos últimos tempos nada que se lhe compare, pois que, ademais, é poético sim, mas poético de qualidade. Oh fossem os de Cavaco Silva assim, inquietasse-nos ele, o Presidente da República, por causa da forma "como dormimos o nosso sono". Disse, ainda, outras coisas importantes, a propósito da reinvenção da democracia e foi sensata ao não demonizar, como agora faz escola entre os mais perversos, as pessoas que não foram votar, aludindo aos que "não estão conciliados com a política". Noutros trechos, porém, denotou-se-lhe um êxtase orgásmico, como quando se referiu a uma "função sagrada", essa a de legislar. Neste ponto, lamento, mas nem "sagrada" em sentido metafórico admito. Houve ali, de facto, uma concepção de Legislador e de Poder (Legislativo e de Estado) com que, pelo exacerbado que estava, não me identifiquei. Mas enfim, a perfeição é eterna.

Maria Assunção Esteves, tivesse eu ouvido o discurso dela antes da eleição, seria, só por ele, sempre a minha primeira escolha. Além disso, é transmontana (perdoem-me o regionalismo). Ainda bem que foi eleita. A Assembleia da República está de parabéns e, por favor, venham daí mais discursos.

Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

NOITE ELEITORAL



Fiz um interregno nas minhas (merecidas) férias para a assistir à regularmente deprimente noite eleitoral. É daquelas noites em que perdemos o nosso tempo a ouvir discursos vazios, falsos e ilusórios. Enfim, um desperdício da nossa atenção. Uns choram o abandono do poder e, com isso, a distanciação face aos tachos, panelas e talheres. Outros surgem ecstasiados com o assalto que estão prestes a cometer. Diria: a infeliz normalidade.

O que fica desta última noite?

Em primeiro lugar, o mais relevante, sai da condução do país um homem, José Sócrates, cujas características como primeiro-ministro são inenarráveis. Se houve alguém que nestes anos de democracia nos fez regredir a um estádio político típico do terceiro mundo, dominando permanentemente a mentira, a ilusão e a manipulação da realidade, foi ele. De notar que sempre pensei que vencesse. Assumo a minha errada previsão e renovo, parcialmente, a fé que já perdera no conjunto do povo português.

Em segundo, e por consequência do primeiro, vai governar o país um senhor que, pelos votos, parece ter suscitado alguma adesão ao tal slogan da "Mudança". Ora bem, chamem-me céptico: ele não vai mudar nada.

Passos Coelho, que não era, nem é, uma boa escolha, é somente a menos má. Passos Coelho é a continuidade com traços que já se prolongam há vários anos no nosso país: consegue chegar-se a Primeiro-Ministro sem curriculum, sem percurso de vida e profissional, sem profundidade (não me venham com aquela de que ele é um "liberal" porque provavelmente nem ele sabe o que isso significa), sem experiência e sem provas dadas. Passos Ceolho é um produto do aparelho partidário e foi assim que agora atingiu a posição que ocupa. Da mesma forma que entregaram o país a um Sócrates que também não era ninguém, os portugueses decidiram agora confiá-lo a Passos Ceolho, outro ainda mais enigmático e desconhecido. Paulo Portas teria sido uma opção mais racional.

O sucesso de Passos Coelho dependerá, em grande medida, e como sempre, das pessoas de que se rodeie e veremos, não tarda, a composição do Governo. Bem sei que o optimismo e a esperança são positivas, mas importa que não nos ceguem: Passos Coelho não é um salvador e tem perante si a tarefa gigantesca de procurar evitar um segundo empréstimo ou, em última análise, uma reestruturação da dívida. Dependerá dele?

Por último, a referência mais importante vai para a abstenção, até porque a esse propósito foram feitos vários comentários por personalidades destacadas.
Todos adoram afirmar que a ausência dos eleitores deve suscitar um debate e uma reflexão por parte das forças políticas. O interessante é que nenhum partido, nenhum político a faz. E bem sabemos porquê: porque eles, como nós, sabem o quão não confiamos neles; sabem o quão os achamos, a praticamente todos, uma classe de que nos gostavamos de livrar; sabem que não nos revemos nas suas organizações fechadas, a-democráticas e terroristas, aquelas mesmo que dão pelo nome de partidas e que se utilizam para cativar lugares pagos pelo contribuinte; sabem como desprezamos a maioria. E, claro, como tal diagnóstico não lhes convém, fica por fazer.

Eis que surge, não surpreendentemente, ouvi-o da boca de Luís Filipe Menezes (outro que poderia voltar para médico), a ideia do voto obrigatório, à semelhança do Brasil (mas que bom exemplo, ora não?).
Custa-me qualificá-la. Não sei como exprimir a tirania e a opressão ínsitas num voto obrigatório ou coagido. Não sei como explicar que tal é um atentado desmesurado e insuportável à liberdade de um cidadão, cidadão que deve ter, nem mais, o direito de não votar, o direito de não participar. Porque o cidadão tem que ter essa escolha, e não pode ser nunca o direito a obrigá-lo (leiam Habermas, seus incultos parolos e tirânicos!).

Num país em que não elegemos quem queremos, em que agarra o lugar aquele que o partido, não democraticamente e com pouca transparência, colocou em lugar elegível, pretendem, então, obrigar-nos a pactuar com aquilo com que discordamos, com o sistema que nos repugna, com a podridão, sim, do sistema político que temos. Aí têm a definição de uma ditadura, onde se desconhece o que significa a liberdade do cidadão.

Sábado, 28 de Maio de 2011

LUDWIG VON MISES



Da última vez que fiz publicidade a livros neste blogue (na altura a propósito de Robert Musil), um amigo meu comprou, de facto, O Homem Sem Qualidades. Ele adquiriu uma obra-prima e eu senti que fiz a minha boa acção da década.

Agora, animado pelo acontecimento, venho fazer mais uma promoção literária, desta vez para o campo da Economia.

Ando a ler "Human Action - A Treatise on Economics" de Ludwig von Mises (1881-1973). Os segundo e terceiro volumes são mais específicos, mas o primeiro interessa a todos os públicos.

Forneço-vos uma transcrição (também juridicamente relevante):

"that the state, the social apparatus of compulsion and coercion, is an institution to cope with human imperfection and that its essential function is to inflict punishment upon minorities in order to protect majorities against the detrimental consequences of certain actions" (pág. 70).

Podem encontrar mais informações no sítio da editora: a Liberty Fund. Adicionalmente têm sempre a Amazon.

Boas leituras ;)


Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

ABORTA, POR FAVOR, ESSAS IDEIAS




Passos Coelho, que até me começava a convencer, decidiu aparecer agora com a conversa do aborto. Bem, isto já não é uma gaffe. Isto ultrapassa a razoabilidade. É ser néscio e amador no combate político.

Não sei a que círculo de devotos evangélicos apostólicos romanos é que ele deu ouvidos. Não sei em que reunião secreta e obscura, numa cave, é que ele participou para realizar um rito sacrificial pretensamente em prol da vida humana. Sinceramente, não quero saber. Mas vir lançar insinuações sobre a possível revogação da lei do aborto é do domínio da senilidade.

Levantam-se aliás outros problemas: as pretensões quanto ao aborto ficamos a conhecer. E não virá por aí uma reavaliação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, para agradar aos beatos que acham que a única função na vida que têm é reproduzir? E o divórcio poderá voltar ao regime do tempo da antiga senhora?

Passos, amigo, aborta essas ideias, se não queres que te penalize.

Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

FEIRA DO LIVRO


Começou hoje a 81ª Feira do Livro do Porto (todas as informações em http://feiradolivrodoporto.pt/)

Dirija-se à Avenida dos Aliados, passeie por entre as barraquinhas, veja os livros do dia com os descontos mais apetecíveis e depois: compre! Aliás, não compre só, quando chegar a casa leia também!

A minha lista está feita, embora seja menor do que em outros anos (as editoras alemãs estão-me a levar o dinheiro todo!). Mas é finalmente daqui a uns dias que vêm cá para casa, sobre Direito, os 4 livros recém-editados pela Coimbra Editora de Castanheira Neves.

Talvez ainda me cruze com outros, daqueles que não podem ficar lá nas prateleiras, sejam romances ou ensaios. Alguma sugestão?

Boa Feira do Livro!

Terça-feira, 24 de Maio de 2011

IMPUNIDADE JUVENIL



Há um vídeo a circular que choca qualquer pessoa que não seja feita de pedra. Nele, duas jovens agridem, com a supremacia que o número lhes permite, uma outra que se vê indefesa, desprotegida e não socorrida por todos os que assistem, enquanto era brutalmente pontapeada no chão e violentada por ambas. A razão do arrufo? Uma inicial discussão sobre rapazes, talvez os mesmos que presenciaram, filmaram e publicitaram o acontecimento. Se houvesse armas à disposição, creio que teriam disparado contra a jovem que pretendiam exterminar.

As generalizações são perigosas, mas estou perfeitamente convencido que este tipo de condutas (tal como a daquela aluna que agrediu a Professora por causa do telemóvel no Carolina Michaelis) espelham um traço comportamental que começa a ser próprio das gerações mais novas:

a) As gerações mais novas desconhecem o que seja a "autoridade". Não conhecem a autoridade em casa (dos pais) e não a sentem na escola (pela instituição e seus representantes). A única linguagem que conhecem é a da força: dos pais, quando estes lhes entendem infligir doseadas punições físicas (isto é, quando lhes "batem"), ou da escola, quando há qualquer forma de castigo compulsivo (seja uma suspensão, uma reprimenda, uma conversa com os encarregados de educação).

b) Subjacente, e até prévio, ao desconhecimento de uma relação de autoridade que dispense estas formas mais agudas de se impor a si própria, está uma ignorância quanto ao que seja uma "relação de respeito". O jovem típico de hoje, no alto do seu egocentrismo, e encontrando-se numa sociedade para quem a "comunidade" é uma contingência e a noção do geral e do outro vai perdendo significado, interessa-se unicamente com a realização da sua vontade. E na realização dessa vontade é permitido ignorar o outro, desconsiderar o outro, esmagar o outro.

c) Anterior ao desconhecimento do que seja "respeito" e "autoridade" está uma fundacional ausência de compreensão do que é a "liberdade". A liberdade do outro não existe, apenas a minha. A integridade e dignidade da esfera do outro é-me completamente alheia. Eu tenho liberdade para fazer o que entendo, porque na decisão sobre o que vou fazer nem sequer considerei a liberdade do outro. A violência torna-se um meio legítimo perante o que considero ser uma ameaça de outrem, porque este outrem está desprovido de qualquer qualidade que eu lhe pudesse reconhecer. Interessa apenas a minha própria pessoa e a realização da minha vontade.

O vídeo que vimos, parece-me, é uma reunião destes três elementos (quanto às agressoras): tal como mostram os Morangos com Açúcar, os ciúmes legitimam que eu me irrite de tal forma que procure violentar fisicamente uma colega de escola. 

Todo este conjunto desemboca depois num contexto social, cultural e económico que lhe é propício: os pais não educam, a escola também não, quando o faz é erradamente (exactamente com textos dos Morangos com Açúcar) e o jovem, alheado do mundo, alheado do outro, concentrada em si e sem noção do que o rodeia, actua como animal a quem não deram a vacina da raiva. Junte-se-lhe a pobreza financeira e de espírito em que metade dos jovens aparecem enredados e, lamento, não há a esperar muito: vale mais o comportamento selvático do que o comportamento regrado (pois que regra não faz parte do vocabulário).

Por último, temos os voyeurs. Os voyeurs sofrem dos mesmos males acima assinalados. A banalidade da violência já se entranhou neles de tal forma que, aliado ao facto de viverem num mundo em que a solidariedade com o outro e a entre-ajuda é um valor raro (na rua poucos de nós se envolverão numa discussão que esteja a ter lugar, ou relembre-se aquele caso de Nova Iorque em que um pedinte morto e estatelado no chão por lá permaneceu mais de uma semana)), dizia, o comportamento agressivo está já de tal forma incluído no quadro conceptual de condutas admissíveis destes jovens que não suscita reacção, não suscita pena, não suscita sentimento. O vídeo demonstra aquilo que, em muitas escolas do país, é o comportamento "normal" entre jovens.

A isso se junta uma lei de responsabilidade criminal desadequada aos tempos. Censurem-me, mas na minha opinião a responsabilidade criminal, com cadeia, poderia começar de forma geral nos 14 anos, e não sei mesmo se não poderia existir a partir dos 12, mediante decisão judicial assente em critérios previamente definidos, relacionados com o caso concreto (forma de realização do crime) e com a pessoa do criminoso (avaliação do jovem e das condições em que praticou o facto).

A impunidade juvenil, a todos os níveis, é um problema social e comunitário grave.

Discriminação juridicamente positivada


[ACTUALIZADO: 27/Maio - a Faculdade em questão generaliza esta disposição do regulamento a todos os alunos, incluindo os que não dispõem de qualquer vínculo com a mesma. Afinal, a letra engana.]

Irei um dia escrever um post mais desenvolvido sobre isto (porque é nestas pequenas coisas que o nosso atraso se espelha), mas fica aqui por enquanto esta singela dúvida: serei o único a achar o seguinte trecho regulamentar, produto de uma Faculdade de Direito, discriminatório?


Artigo 18.º 
Prosseguimento de estudos pós-graduados

Os assistentes estagiários da Faculdade com classificação mínima de 16 (dezasseis) valores na licenciatura e de 17 (dezassete) valores na primeira componente do mestrado podem ser convidados pelo Conselho Científico a iniciar directamente a preparação da dissertação de Doutoramento.


Desde quando é que um vínculo contratual é a definição do mérito?



Sábado, 21 de Maio de 2011

MANDÍBULAS


De acordo com um Relatório da CMVM, agora tornado mediático por via de Francisco Louçã (cfr. http://legislativas.sapo.pt/2011//noticias/lusa/artigo/12574272.html), há 20 pessoas em Portugal que detêm, cada uma, cerca de 50 cargos de Administração em empresas diferentes. No total, acumulam 1000 postos dirigentes. 

No meio disto tudo, os salários que eles, em média, ganham por mês é o menor dos problemas. Aliás, isso é principalmente um assunto de cada uma das empresas e caberá a cada uma definir quanto paga às suas cabeças de topo.

O verdadeiro problema é que não há melhor retrato deste país do que aquele que esta notícia permite efectuar: este Portugal dos 20, é o Portugal dos poderosos que esmagam os outros; é o Portugal pertença de uns pseudo-iluminados que dominam o círculo das influências; é o Portugal daqueles que nos bastidores determinam o grande rumo dos acontecimentos; é o Portugal das transacções e decisões obscuras; é o Portugal sem oportunidades e mobilidade social; é o Portugal opressivo, repressivo e pouco democrático; é o Portugal dos clientelismos e das relações pessoais.

Em suma, é um Portugal, pasme-se, com tubarões brancos em terra que abocanham tudo.

Domingo, 15 de Maio de 2011

STRAUSS-KAHN




A notícia, em si, já é chocante que chegue. E será curioso aguardar pelos desenvolvimentos.
Mas pode aproveitar-se a mesma para uma outra análise: a do novo socialismo.

Strauss-Kahn foi detido já a bordo do Air France com destino a Paris, antes mesmo de o avião deixar a porta. Em que classe? Claro está, na Primeira ("La Première", na designação da companhia aérea). Tendo em conta a rota do voo, são cerca de 5000 euros pelo bilhete (pelo menos).

No Sofitel de Manhattan (até me espanta que não tivesse ficado no Four Seasons, que é muito mais interessante), relata a notícia que a Suite onde ficou hospedado custava cerca de 3000 dólares por noite.

Ou seja, este menino em pouco mais de 48 horas gastou para cima de 10 000 euros (nada que os juros portugueses não paguem).

Mais no fim, informa-se que Strauss-Kahn gosta dos prazeres da vida e que não faz muito tempo se passeava, com a mulher, de Porsche (vd. imagem).

Para ser assim, eu também me alinho nas fileiras do socialismo. E podemos discutir os pobres e necessitados ao sabor de Caviar Imperial do Irão, acompanhado de champagne Krug.

Sábado, 14 de Maio de 2011

A afronta de ter um Rei


Conforme notícia online (http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1152098.html), dão-nos conta que Duarte Pio continua a liderar a cruzada pela implementação de um regime monárquico em Portugal. Ele e a trupe que o acompanha, que acha que tem sangue azulado (algo que não é um problema, eu também sempre quis que o meu fosse amarelo torrado, portanto, temos apenas uma divergência de cores).

O bom das alturas de crise é o facto de potenciar o ridículo. Creio que a crise deve interferir com as hormonas: as pessoas excitam-se, a adrenalina sobe, o desespero da ambiência provoca miragens.

Agora o homem, Duarte Pio, cuja figura nem me é antipática (é um cidadão como eu, que me merece todo o respeito), vem sustentar que com um Rei não estaríamos nesta situação de descalabro.  Eu deveria ter ido, de facto, ao congresso ou comício da Causa Real (acreditando que não me barrariam a entrada; na verdade, descendo de camponeses).

Sou daqueles portugueses que já há muitos anos considera que, pela nossa História, em particular pelos Descobrimentos, deveríamos no mínimo, ser nós a actual potência mundial. Pela nossa História, deveríamos ser uma espécie de EUA, Inglaterra, França. Vá, reduzindo a uma escala menor, por causa das contingências territoriais, teríamos de ser uma Suíça, Holanda, etc. Chocantemente, não somos.

E eis o que gostava de perguntar à Causa Real: como é que um país governado sucessivamente por Reis, que a partir sensivelmente de 1500 tiveram o domínio do mundo e a posição mais influente a nível global, acaba por volta de 1900 como um pobretainas europeu, sem cultura, sem avanço, sem destaque, sem lugar no Mundo? Qual foi mesmo o legado de 900 anos de monarquia?

A Monarquia é tudo menos alheia ao descalabro actual. 

Acresce que a instituição, no presente, de uma monarquia seria um rebuçado para uns happy few que rezam todas as noites perante o brasão: o resto do povo não sabe, não quer saber e sinceramente nem interessa saber o que é ter um Rei. Conformem-se, meus duques e duquesas, dons e donas. Tudo tem um fim. 

Do plebeu, com amor.

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

Ulrich


Cheguei à conclusão que, a cada dia que passa, me identifico cada vez mais com o Ulrich de "O Homem sem qualidades". E isso acentua a minha dificuldade em compreender os outros que têm ou procuram ter certezas.

Conclusões de uma tese de doutoramento alheia sobre partidos


A referência bibliográfica da obra é MARIA DA CONCEIÇÃO PEQUITO, O Povo Semi-Soberano, Coimbra: Almedina, 2009 (pode comprar em: http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=8533 ). A páginas 753 e ss. reza do seguinte modo:

1) os partidos comportam-se como "empresas políticas" [...] criando artificialmente solicitações e reivindicações, a que procuram dar resposta, a fim de aumentar os seus benefícios no mercado eleitoral numa determinada conjuntura;

2) a tradicional função dos partidos de integração e mobilização dos cidadãos no processo político tornou-se irrelevante, redundante e desnecessária nas democracias industriais avançadas;

3) a função de informação e formação da opinião pública cabe, hoje, no essencial, à comunicação social;

4) a função programática vai-se erodindo, na medida em que os peritos e especialistas assumem a liderança da orientação decisória;

5) as listas eleitorais são maioritariamente constituídas pelas pessoas que fazem carreira no interior do partido, em particular os envolvidos nas tarefas organizativas;

6) tal confere ao recrutamento parlamentar uma natureza "fechada, autoreferencial e preponderantemente partidocrática" - "a trajectória daqueles que integram a classe política parlamentar é fundamentalmente uma carreira de partido, no partido e para o partido";

7) há uma "deriva partidocrática da democracia representativa em Portugal";

8) os deputados são escolhidos pelos partidos e não pelos eleitores, e tal processo, no interior dos partidos, é fechado, centralizado e pouco transparente;

9) o deputado tende a revelar uma obediência acrítica ao directório partidário e às suas ordens, principalmente porque quer assegurar a sua re-nomeação para as listas das próximas eleições;

10) se a situação não se altera, em especial, se a democraticidade interna dos partidos não melhora, teremos uma situação de "poder exercido pelos partidos e pelos políticos profissionais sobre o povo".

Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

D. Sebastião regressou (e dá conferência de imprensa)



D. Sebastião, esse mitológico símbolo da história portuguesa, aterrou ontem em S. Bento (e falou ao país). Na mais grave crise em Portugal seguramente desde há 100 anos, eis que surge uma figura de proa: salvadora, imponente, dominante, dura, ganhadora, determinada e determinante.

Pequeno pormenor (não tão relevante): D. Sebastião, no processo de regresso de Alcácer Quibir a Lisboa passou num registo civil e mudou de nome - agora, chama-se José Sócrates. Mas, todos o sabemos, o nome é uma contingência, o que interessa é a substância. José Sócrates é o messias por que esperávamos. José Sócrates, ou D. Sebastião (é indiferente), é a personagem que nos vem libertar desta dura realidade e dizer: estamos na bancarrota, sim; vocês são uns parvos que só se endividam para irem para Punta Cana e Cancún e depois fazerem figuraça no bairro com a pele morena, sim; vocês são uns incultos e demorará 20 anos até que consigamos crescer qualquer coisa que nos aproxime ligeiramente da Europa, sim. Todavia: Portugal está vivo, respira e venceu e vencerá sempre: mantêm o 13º e 14º mês; nas pensões não se mexe; o salário mínimo queda intocado; a Administração Pública gorda mantém-se e não haverá despedimentos; etc.

A conferência de imprensa de ontem por parte de D. Sebastião (não percebi quem era aquela figura ao lado dele, talvez algum camareiro) foi fenomenal, talvez mesmo perfeita, constituiu uma aparição esplendorosa.

Fiquei felicíssimo pelos anúncios efectuados. Também não queria cortes no 13º e 14º mês. Ninguém mentalmente são pode querer tal coisa. Mas o que impressiona é a forma da conferência de imprensa: de génio.

José Sócrates (ou D. Sebastião) merecia um prémio por aquela orquestração, senão reparemos:

1) Apenas se foca nos aspectos positivos e que aterrorizavam as pessoas. Temos de reconhecer que foi um gesto solidário e consciente que, por sua vez, intensificou o alter-ego sebastianista - "Estais salvos! Eu salvei-vos! Eu vim e estou aqui para vos conduzir ao Portugal melhor". Obrigado, Sócrates!!

2) Prova que o PSD fez parte do grupo de assassinos de Marrocos que nos tentaram roubar esta lenda, agora, renovadamente viva. Ora, O PSD chumba o PEC IV porque "eram preciso mais medidas" e, pior, porque não poderia ser D. Sebastião à frente do país. Mas que sacrilégio! Que outra figura nos poderia conduzir neste momento turbulento e existencial que não José Sócrates? Ele é O Homem! Ficou demonstrado ontem que só graças a D. Sebastião/José Sócrates foi possível termos conseguido aquele acordo com os malfeitores internacionais. O PSD, também se clarificou, tentou destruir tudo, tentou aniquilar o bom rumo que o salvador tinha traçado. E depois desse golpe baixo eis que D. Sebastião nos informa: "Meus súbditos, não temam, eu venci! Meus súbditos, não temam, eles [PSD] tentaram trucidar-Nos, tentaram trucidar-Me, mas mesmo em circunstâncias tão difíceis e vulneráveis eu servi-vos e salvei-vos. Eles estavam errados e fez-se justiça". 

3) Desmascarou o PSD, que agora vê a sua verdadeira identidade terrorista a descoberto (estivéssemos nós no Paquistão e creio mesmo que o PSD habitaria maritalmente com Bin Laden, entretanto falecido). O PSD arranjou uma crise política devido a um acordo que é a (essencial) base do novo. Perdeu a legitimidade e a dignidade.

4) Colocou o PSD num estado vegetativo: disso foi prova a consequente conferência de imprensa, logo a seguir à intervenção de D. Sebastião, que conseguiu ficar para a história como a mais ridícula e aldrabona.

5) Importantíssimo: D. Sebastião renova o credo de ser indispensável à Nação, de não se poder viver sem ele, de só ele ser o destinado para nos guiar. Mais uma vez, revitalizou a constatação de que ele é "O Farol".


Perante isto, que dizer? O mesmo que Wittgenstein escreve a dado passo no  seu Tratado Lógico-Filosófico: "Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio". Os efeitos daquela conferência de imprensa, ontem, não são linguisticamente traduzíveis. E não incito à depressão geral: isso fortalece D. Sebastião.

[Ontem fiquei ainda com uma convicção: José Sócrates é muito bom, o melhor, no domínio do jogo mediático e comunicacional. Mas o seu verdadeiro trunfo é só um: ele não quer saber do país, nem do futuro.]

Domingo, 1 de Maio de 2011

A prostituição e o prazer


[No fim do post, encontra-se, em letra mais pequena, uma nota de esclarecimento]


Não posso negar a minha simpatia para com as prostitutas, especialmente neste país de moralistas beatos que lhes nega direitos e dignidade. Um enquadramento legal que lhes assegurasse a maior segurança possível a vários níveis e em sentido bilateral (prostituta/o e cliente) parece-me, já há algum tempo, a melhor solução. 

Talvez assim também se evitasse a utilização abusiva do vocábulo. A "prostituta" dá para tudo: claro, dá para aquilo que nós essencialmente já sabemos e que me dispensa de descrição; mas na medida em que lhe vai associada a conotação negativa de indigna e vendida, presta-se ainda a ser utilizada como insulto e degradação de outrem, quando este for daquela forma qualificado. 

Isso parece-me desprestigiante da ocupação de todos aqueles que fazem do sexo o seu mercado.
A prostituta dá fundamentalmente prazer a quem utiliza os serviços que ela coloca, mediante contraprestação, à disposição, o que não deve ser menosprezado (já dizia alguém que "a prostituição é serviço de caridade para com os feios e com os tímidos"). 

É por isso que não compreendo as recentes afirmações do Sr. Marinho Pinto (cfr. http://economico.sapo.pt/noticias/ensino-superior-prostituiuse_116725.html ). Diz esta alma pura e incorruptível que "as universidades se prostituiram". Ora, lá está ele a utilizar toda uma classe (a das prostitutas), com o objectivo de, por instrumentalização do papel destas, denegrir outros (logo ele, que vem de um grupo profissional que tem uma virgindade espiritual comparável à das Carmelitas).

Mas há qualquer coisa que falha em termos de lógica:
1) eu quero prazer;
2) se não o consigo por mim próprio, é natural que recorra a algo ou alguém;
3) ditam as leis do mercado que quanto mais e melhor prazer queira, mais caro tenha de pagar.

Projectando no caso universitário: se quero mais e melhor educação (com o inerente prazer que isso me proporciona), é natural que deva estar disposto a pagar o máximo possível às Universidades. O que nos tem salvo da linearidade desta conclusão é o Estado falido em que vivemos (embora pelo que diz o Marinho Pinto, mesmo essas prostitutas de rua que só cobram 900 euros por ano de propinas também são umas pecadoras; ou seja: fica provado que preços baixos não garantem qualidade).

Quanto ao Marinho, quem me dera que ele se prostituisse. Pelo menos significaria que daquela boca sairia algo que nos dava prazer e que justificava o salário pornográfico que ele recebe. Mas não, ele não tem a honra nem o sentido de compromisso das prostitutas. Ele não dá prazer.


[Este post não emite nenhuma opinião ou valoração acerca da dignidade ou falta de dignidade que implica um ser humano, por qualquer razão, ter de se prostituir. Isso seria uma outra discussão. Partiu da premissa fáctica de que há pessoas que se prostituem e que merecem o nosso respeito. Já outros há que, embora não se prostituindo, só merecem a nossa reprovação.]

Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

O sex-appeal da senhora de amarelo não chega



Foi bonito. É a pompa, é o protocolo, as carruagens, os diamantes, brilhantes, safiras e rubis, os Rolls-Royce (oh os Rolls-Royce!), os fatos militares, a plebeia a tornar-se princesa... Sim, estejam à vontade para me oferecer um casamento assim, embora eu não tenha 1900 pessoas para convidar.

Dito isto, com os anos, o meu sentimento a-monárquico (não sei se anti-monárquico seria propriamente o qualificativo mais adequado) tem-se acentuado. E, com isso, a minha perplexidade em como os ingleses ainda aceitam e toleram a família real europeia mais portentosa e ostensiva. Não me venham falar em proximidade ao povo: proximidade é calor, é abraço... e o protocolo diz que nem conversa podemos iniciar com aquela jeitosa todo-poderosa de amarelo (sim, o poder e a riqueza dão sex-appeal)!

Uma família cujas circunstâncias da força e do exercício de subjugação historicamente destacaram, assente em linhagens que montam a tempos de escravidão feudal, onde uns pelo sangue se sobrepõem a outros... não me convence. O século XXI não me convence de que a monarquia não deveria ser já um antigo regime político ultrapassado. 

Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

A inversão do ónus


Portugal é, tradicionalmente, um país de vítimas. E já se sabe, lá onde todos são vítimas, não há culpados, não há responsáveis. Todavia, também uma outra retórica se tem acentuado, própria daquela que é a situação de crise (mais) aguda em que vivemos: o de que, por este estado actual, somos todos culpados, somos todos responsáveis. Basta ver, embora sendo um discurso até jeitoso, o que o ex-Presidente Jorge Sampaio disse naquela cerimónia improvisada do 25 de Abril - sim, porque ao Dia da Liberdade, em termos institucionais, é indiferente ser em São Bento ou em Belém (tal só indignou mesmo o ilustre deputado José Lello, que queria uma festa a sério e "abrangente", isto é, não foleira). 

Ora, aquela distribuição igualmente "abrangente" e inclusiva de culpas é perversa, por várias razões. Primeiro, tal como quando todos são vítimas ninguém pode ser responsabilizado, também quando todos são responsáveis não vale a pena proceder a individualizações: uma sociedade apenas composta por criminosos dispensa sistemas de reprovação e repressão. Segundo, é um discurso fácil aquele que acusa o despersonalizado: "todos". E por essa via atinge-se o ridículo: às vezes chego a pensar que também o pedinte drogado, cujo pai morreu antes de ele ver a luz do dia, e cujo coração da mãe parou devido a overdose quando ele tinha 7 ou 8 anos, atirando-o para uma vida de indigente entre várias instituições correccionais por causa dos pequenos delitos, dizia, até esse, tem culpa das 340 000 auto-estradas do país, da linha de caminhos de ferro mal projectada que obriga todos os comboios a pararem para que o Alfa Pendular passe (e não andando este em média a mais do que 120 km/h, quando o poderia fazer a 220 se tivesse havido competência ao nível da decisão quanto à infra-estrutura), dos aumentos injustificados da função pública e do salário mínimo nacional, da diminuição de impostos para posterior subida, etc... Culpar quem ocupou as respectivas pastas governamentais e foi eleito? Sim, mas atenção, todos temos a nossa co-responsabilidade.

Como se depreende, parte disto está relacionado com aqueloutro argumento da sociedade portuguesa se ter demitido da participação democrática e cívica. Na minha opinião, trata-se de uma perspectiva falaciosa.
Portugal viveu durante cerca de 50 anos uma ditadura autoritária que cerceou um desenvolvimento individual (com correspondentes projecções ao nível do social como um todo) que se possa considerar são. Há estudos a vários níveis sobre os impactos que perduram (a título de exemplo, têm o famoso José Gil e uma obra académica de que gosto bastante de Carlos Leone e que dá pelo título "Portugal Extemporâneo", bastante instrutiva para a compreensão do século XX português). Isto para dizer que, em termos populacionais, os níveis educacionais não são os óptimos, nem se comparam com uma certa Europa. O escrutínio crítico que um determinado sector da sociedade está em condições de efectuar é muito reduzido. 
Acrescenta-se a isso que Portugal não tem uma imprensa verdadeiramente digna do nome. Que me perdoem todos os jornalistas do país, mas nós cá no burgo brincamos à informação. Não existe uma imprensa da qualidade de um Frankfurter Allgemeine Zeitung, de um Die Zeit ou Süddeutsche Zeitung (para quem for mais francófono ou anglo-saxónico encontre os correspondentes nesses países). Ou seja, o escrutínio mediático também se aproxima do reles, salvo havendo hipótese de escandaleira pessoal e íntima, caso em que a mentalidade tablóide se revela em todo o seu esplendor.

No entretanto, os partidos políticos tiveram a sua evolução até ao presente. Resultado: transformaram-se em verdadeiras organizações terroristas, marcadas por uma democraticidade interna inexistente, por um vácuo de ideias e por métodos pidescos de controlo de opinião.
Ora, a geração mais ou menos qualificada (e supostamente mais crítica) que hoje, dos 20 aos 35 anos, começa a consistir em Portugal, é com este panorama político que se depara (a juntar a um certo declínio do debate ideológico próprio dos tempos contemporâneos). Também eles são acusados de serem apolíticos, de não contribuírem para a democracia, de não se inscreverem nessas organizações e tentarem fazer-se ouvir. Há muitas formas de fazer o contraditório, na medida em que a ideia exposta assenta na premissa de que a mediocridade em que os partidos degeneraram se modifica por dentro. O meu cepticismo expressa-se da seguinte forma: não há memória de o nazismo se ter mudado no interior do NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei). Além do mais, muitas pessoas têm contribuído mais para a democracia do que a maior parte dos filiados que pretendem o tacho nos secretariados, comissões e comissionetas: promove mais uma democracia consciente um empresário que cria emprego e um professor que ensina os alunos a pensarem, do que muitos dos ministros ou deputados que acham que a representam.

Tudo isto torna ainda mais perversa a inversão do ónus da responsabilidade, desculpabilizando quem conduziu o país a esta situação. Eu não tenho culpa absolutamente nenhuma pelo estado de coisas e nem morto me apanham a discutir estatutos ou a dizer meia dúzia de vacuidades com gente mais ou menos mentecapta ao lado, em "Reuniões da Concelhia" ou da "Distrital". A influência para algumas mudanças já se está, aliás, a fazer sentir, basta ver a caça ao deputado "independente", e vai ser interessante observar a crescente pressão externa, civil e social sobre os partidos. Mas, concluo, os culpados da degradação nacional têm nome, têm rosto, e a minha afilhada querida quase a fazer 2 aninhos não está no conjunto.



Do ponto de exclamação e do ponto e vírgula

(Decidi partilhar aqui aquilo a que talvez pudesse chamar um dos meus "clássicos". É um texto já datado, mas que creio não ter perdido a piada e o sentido. Foi elaborado para um cadeira que frequentei de "Pensamento Crítico", sabiamente organizada e dirigida pela Prof. Ana Andrade, cuja opinião positiva ainda a guardo aqui escrita. Fica, agora, assim, também sujeito a um escrutínio mais geral. Tudo porque os sinais de pontuação também se pensam.)

Recentemente, deu-se nos blogues literários e numa ou outra revista da área, uma discussão acerca da utilização do ponto de exclamação. A situação atingiu um tal celeuma que há mesmo blogues que declaram: “Este é um blogue livre de pontos de exclamação”[1]. Clamou-se pela sua eliminação ou, melhor dizendo, erradicação. As razões desta diatribe contra este sinal de pontuação adviriam de uma certa impertinência e deselegância do mesmo. O ponto de exclamação seria como que um berro ao leitor, seria demasiado ostensivo, enervante, e, por isso, não se compaginaria com a muito mais delicada forma soft de expressar a mesma ideia. O ponto de exclamação estaria ligado a uma fala bruta, irritante, irracional, presunçosa e, quiçá, impositiva do seu autor. Cito um texto de Francisco José Viegas[2]: “o abuso na sua utilização apenas prolonga a histeria do autor, a gritaria, e muitas vezes a sem-razão de um texto, para não mencionar a agressividade ou o gosto português pela indignaçãozinha.” (sobre a sua utilização em jornais), ao que acrescenta “O ponto de exclamação é um excesso de ruído que não acorda ninguém, uma espécie de martelo pneumático colocado no final de uma frase.”. Em resumo, o ponto de exclamação demonstraria a “incapacidade de alguém se fazer explicar” nos dizeres do Senhor Palomar[3], que pergunta peremptoriamente: “por que não erradicar um sinal que só nos faz lembrar que temos cordas vocais, pulmões, e que somos livres de os usar?”.
Por momentos pareceram-me persuasivos os argumentos com que avançavam. Considerei que, na realidade, talvez o ponto de exclamação tivesse uma correspondência perfeita naquela frase celebrizada por uma das personagens de Herman José: “Não havia necessidade”. Porventura, representaria um excesso que devia ser restringido, que importaria procurar uma alternativa que inculcasse outra serenidade e ponderação na apresentação da mesma ideia e que não seria imperativo colocar aquela bomba final no regaço do leitor. Achei mesmo que, de facto, muitas situações de ponto de exclamação esgotam a paciência de qualquer um e tornam desesperante uma leitura. Ninguém quer levar com uma catadupa de personagens que mais parecem estar à beira de esgotamentos nervosos. Posto isto, estive quase a fazer-me membro deste movimento pela erradicação do ponto de exclamação do nosso sistema de pontuação.
Com um pouco mais de reflexão, mudei de opinião. Pensando a fundo na questão cheguei a uma conclusão que me pareceu essencial: o ponto de exclamação é demasiado humano. Se virmos bem, ele pode representar aquilo que de mais natural existe em nós: pode significar a maior espontaneidade e sinceridade no acto ou no dizer. Pode ser o sinal final perfeito para um momento em que se diz algo da forma mais pura, sem o intermédio de qualquer racionalização que acabe por truncar a naturalidade da expressão. Além do mais, pergunta-se: não precisamos todos de gritos de liberdade ou emoção? O ponto de exclamação, nesta perspectiva, é a buzina e, na verdade, precisamos todos dela para nos aliviar. O ponto de exclamação é profundamente humano porque é o único que pode corresponder de forma mais adequada àqueles momentos de maior verdade no que fazemos e dizemos. É o único, igualmente, que está bem enraizado em situações comandadas especialmente por sentimento, em detrimento da ponderação que uma análise racional impõe. Ora, aquela primeira parte emocional é, evidentemente, parte essencial do ser humano. Despojarmo-nos do ponto de exclamação era, afinal de contas, atirarmos como covardes para o caixote do lixo esse sinal de pontuação que temos e que nos exprime num domínio que tão pouco controlamos, mas que é inalienavelmente nosso. É demasiado humano porque representa algo de que não podemos abdicar, que se pode consubstanciar no falar emotivo, na reacção descontrolada, no insulto, na sensação de surpresa ou expressão de novidade: o ponto de exclamação traduz parte da nossa vulnerabilidade e da nossa incapacidade de controlarmos não só tudo o que nos rodeia, mas também de nos controlarmos a nós próprios. Em suma, o ponto de exclamação é humano porque é-nos intrínseco, de tal sorte que, mesmo desaparecendo da escrita este sinal, continuariam a existir todas essas situações que reclamariam nada mais nada menos que esse tubo de escape no final da frase.
Estas considerações ganham outra plasticidade se compararmos o sinal de pontuação em referência com o alternativo ponto final. Guardarei ainda alguns comentários para outra espécie de sinal, o ponto e vírgula.
Se olharmos para o ponto final, o que vemos? Vemos um sinal de pontuação que, posto em paralelo com o ponto de exclamação, se revela chique, definitivo, determinante e determinista. O ponto final é o sinal daqueles que não se exaltam, mas que também não se revelam: tudo está sempre sob controlo, tudo é calculado ao milímetro, tudo parece ter sido ponderado e reponderado no mínimo uma centena de vezes, é o sinal das pessoas imperturbáveis (óptimo para uma cocktail party). É o sinal de expressão daquela ideia definitiva, de quem assenta um imperativo categórico. É um sinal que está lá para determinar o rumo dos acontecimentos sem admitir contradição ou obstáculos no seu caminho. O ponto final existe para pontuar a frase da pessoa decidida, a afirmação que sabe que não tem rebatimento possível. Tem-lhe, pois, ínsita esta definitividade e este determinismo. Note-se ainda que há uma diferença de carácter estrutural entre o ponto final e o ponto de exclamação. Tomemos o exemplo de quem pretende mudar o mundo, até fazer uma revolução. Tem duas hipóteses: primeira, sair à rua e, com exaltação e coragem, pretender convencer as pessoas do seu projecto, berrar ao vento as suas ideias-chave tendo o intuito de fazer com que quem o ouve fique também siderado, fique emocionalmente tocado e predisposto para o seguir – este é o domínio do ponto de exclamação; segunda, arranjar uns amigos poderosos ou se for do círculo do poder, melhor, porque fica o trabalho facilitado, reunir-se com camaradas num gabinete e planearem em surdina o golpe de Estado – tudo se passou com pontos finais, sem emoção, com a frieza dos calculistas e ocultistas, com a mente dos ditadores.
Verifica-se assim que não só o ponto final não serve como completa alternativa ao ponto de exclamação, como este não pode, nem deve, ser eliminado. O ponto de exclamação é-nos necessário a bem da diminuição da superficialidade e dissimulação.

***

Há outro sinal de pontuação que, dado o contexto, merece, igualmente, uma palavra (de estima): o ponto e vírgula. É curiosamente o meu sinal de pontuação favorito.
O ponto e vírgula é um caso sério. Trata-se, provavelmente, do sinal mais complexo e do sinal a que é muito difícil descobrir a verdadeira identidade. O ponto e vírgula é um mistério, resultado de uma conjugação difícil de perceber à primeira vista. Por um lado, o ponto que é igual ao ponto final embora espacialmente colocado numa posição superior – e ao ponto já me referi e às suas características de definitividade e determinismo. Por outro lado, há a vírgula, símbolo de continuidade, pequena pausa, elemento de organização de uma ideia superior às suas pequenas divisões na frase escrita, tem o dom de não perturbar a globalidade da ideia que com vários factores queremos reforçar ou enfatizar. Por aqui podemos ver logo como o ponto e vírgula encerra o que aparenta ser uma contradição insanável: é a conjugação do definitivo com o temporário e a simbiose entre a interrupção e a continuidade.
Neste sentido, o ponto e vírgula é talvez o sinal mais intelectual. É o sinal do pensamento constante e da reflexão permanente, que não se pode dar ao luxo de terminar mas que precisa de deixar espaço e tempo para a sua assimilação. Muitas vezes é o sinal de um ininterrupto reflexivo consciente que necessita de uma pausa para recuperar as suas forças e continuar – é a suspensão prestes a ser interrompida porque o sujeito sabe que terminar, colocar um ponto final, era falsear a natureza das coisas: o pensamento não acaba, é uma constante sempre à procura de mais elementos sobre que depositar a sua atenção e daí o ponto e vírgula que permite esse efeito perfeito de uma total abertura ao novo, a outro factor, à continuidade da vida.
Este sinal acaba mesmo por se tornar uma forma de ser e pensar as coisas: rejeitar compartimentações estanques, compreender que tudo se encontra interligado, que a ideia subsequente embora podendo ser aparentemente diversa da precedente não pode ser dela apartada porque tudo está conectado, em suma, porque nós humanos com as nossas falhas nunca encontramos a verdade suprema. O ponto e vírgula é essa busca algo desenfreada de atingir um maior grau de esclarecimento, mas não se coloca o ponto final porque se tem consciência que isso seria contribuir para criar a ilusão de que se chegou ao fim – e não há fim.
Dito isto, conclui-se que o ponto e vírgula diz muito de quem o utiliza. Afirmei que ele traduziria uma forma de ser e pensar as coisas, e portanto, nesse sentido, ele abre uma janela para entendermos a postura com que certa pessoa abordou aquele específico problema ou tema: transmite a atitude de quem quis chegar gradualmente a um patamar mais profundo. Os alemães condensam numa palavra que tomo por bastante expressiva o adjectivo perfeito para o tipo de pessoa do ponto e vírgula: nachdenklich. Alguém pensativo e meditativo, especialmente na vertente introspectiva, reflexão que se sucede a outra reflexão. Um ser de problematização permanente e contínua. Note-se que para isto a vírgula apenas não serve: aí seria demasiado torrencial, não haveria organização. O ponto e vírgula permite formar bases de sustentação, ir criando pequenas ilhas que depois conseguimos ligar com pontes. A vírgula em si só criaria uma extensão interminável de terra em que, chegados ao fim, seria difícil de voltar para trás para tirar conclusões.
Daqui se retira a complexidade imanente ao ponto e vírgula. Porém, como também se depreende ele tem a vertente positiva da organização, da reflexão estruturada, e permite o prazer de chegar a uma análise cuidada de um problema, em diversos passos que podem, no fim, fundamentar uma opinião.
No entanto, tem um perigo: o de se tornar snob. Na verdade, estamos sempre perante atitudes conceituais e teóricas. O ponto e vírgula na perspectiva de ser nachdenklich pertence ao domínio da filosofia pura. E claro muitas vezes para quem está no exterior é mal compreendido (como aliás o é a filosofia) pois a atitude de chegar ao fundo e pormenor das coisas, de almejar pela compreensão total é por muitos mal encarada. Daí que convenha ser cauteloso com a sua utilização para não causar essa má impressão. De resto, como se prova, é um sinal saudável – ligado à vida e às faculdades superiores do homem, nomeadamente da Razão.


[1] Ver, entre outros, o Senhor Palomar em “senhorpalomar.com”.
[2] Em http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/996503.html.
[3] Ver em http://senhorpalomar.blogspot.com/2009/07/o-ponto-de-exclamacao-ou-o-inicio-de.html. 

Primeiro Post

A blogosfera nunca foi muito o meu género. E por várias razões: o escrever para ninguém, na medida em que a probabilidade de este se tornar um "blogue moribundo" a que ninguém liga são altas, nunca me atraiu; por outro lado, a abertura ao mundo deste meio tornava qualquer escrita pretensamente mais intimista (e direccionada para mim) demasiado exposta. Enfim, não é que tenha reconsiderado a minha posição, mas da mesma forma que se tem um Facebook, pois que se tenha, logo se verá para quê, também um blogue.

O título que lhe decidi dar, embora me pareça suficientemente querido, não tem grande originalidade, mas servirá de mote a este primeiro post.
Ando a ler um livro cujo título é nada mais e nada menos que "Na Sombra do Rei" (PHILIP MANOW, Im Schatten des Königs - Die politische Anatomie demokratischer Repräsentation, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2008, de que haverá uma tradução inglesa recente). Tomando como base o que li até agora, já estou em condições de afirmar que é deveras interessante. O que se procura dilucidar são todos aqueles aspectos do regime democrático que terão origem ou fonte no designado Ancien Régime. Isto é, mostrar e provar como a ideia de ruptura total com a ordem política anterior dominante que se tentou propagar com a instituição da "democracia", nomeadamente com a Revolução Francesa, não pode ser compreendida de um modo absoluto. O regime democrático, em várias das suas manifestações, não pode ser entendido como algo que surge ex novo, antes a cabal explicação de diversas das suas características (como por exemplo, a forma do plenário no Parlamento, a imunidade dos parlamentares, a publicidade dos debates) só se atinge por referência ao regime político anterior.

Generalizando, estar conscientemente "Na Sombra do Rei", agora enquanto metáfora, é estar ciente das premissas ocultas ou não evidentes de uma realidade que, muitas vezes, é por elas determinada. Acreditando que o blogue, este blogue, servirá para o exercício do espírito crítico que me é possível, procurarei, assim, independentemente do tema do post, enformar a escrita curta e concisa (que aqui se deve impor) dessa postura de iluminação das sombras que nos turvam a percepção do real. Será, naturalmente, uma visão pessoal, parcial, política, mas, fundamentalmente, desinteressada.

Para todos os que me venham a ler, um bom proveito e deixem comentários ;)